Teatro de Contêiner Mungunzá sob ameaça: artistas resistem à ordem de despejo da gestão Nunes

Teatro de Contêiner Mungunzá sob ameaça: artistas resistem à ordem de despejo da gestão Nunes

imagem de reprodução

Espaço cultural referência nacional enfrenta ameaça de remoção; artistas e sociedade civil se mobilizam

O Teatro de Contêiner Mungunzá, localizado na região da Luz, em São Paulo, está sob forte pressão da gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), que emitiu nova ordem de despejo com prazo final para desocupação até quinta-feira, 21 de agosto. A notificação foi assinada pelo subprefeito da Sé, coronel Marcelo Vieira Salles, e determina que o grupo deixe o local “sob pena da implementação da gradação coercitiva”.

Em uma rede social, o Lucas Bêda, um dos reesposáveis pelo Teatro fez um apelo a classe artista para comparecer e fortalecer a resistência a ação impositiva da gestão de Ricardo Nunes. “O Teatro de Contêiner Mungunzá é resistência, arte e comunidade no coração de São Paulo, e não pode ser despejado para dar lugar a projetos que ignoram cultura e cidadania”, enfatizou a publicação.

A situação é considerada alarmante por artistas, técnicos e entidades culturais. O SATED/SP (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo) , por meio da presidente Rita Telles, denunciou mais uma ação prejudicial à cultura paulistana, destacando que o despejo representa a perda de um dos equipamentos mais ativos e inovadores da cidade.

Desde sua inauguração em 2016, o Teatro de Contêiner promoveu mais de 4 mil ações artístico-sociais, com espetáculos de teatro, dança, música, oficinas e atividades comunitárias. O espaço, montado em contêineres com arquitetura de vidro e aço, tornou-se referência nacional e internacional pela proposta estética e social.

Investigação e falta de diálogo

O Ministério Público de São Paulo instaurou um inquérito civil para investigar possíveis irregularidades administrativas na condução da ordem de despejo. São investigados o prefeito Ricardo Nunes, o secretário de Cultura Totó Parente, a secretária de Direitos Humanos Regina Santana e o subprefeito Marcelo Salles. A Promotoria apura suspeitas de desvio de finalidade, abuso de poder e violação de princípios constitucionais da administração pública.

Segundo o MP, não há informações detalhadas sobre o projeto habitacional que justificaria a remoção do teatro. A ausência de diálogo com os coletivos culturais e a omissão quanto ao valor simbólico e social do espaço também são pontos centrais da investigação.

Propostas inadequadas e cronograma em risco

A Prefeitura afirma ter oferecido dois terrenos para realocação do teatro, sendo o mais recente na Rua Helvétia. No entanto, os representantes da companhia alegam que os locais não atendem às exigências técnicas mínimas para abrigar a estrutura do Teatro de Contêiner, devido à insalubridade, ruído excessivo e localização inadequada.

O grupo possui um cronograma de atividades até dezembro, incluindo mais de 60 apresentações, dois festivais em andamento e a participação na 41ª edição do Programa Municipal de Fomento ao Teatro. “Estamos com três convênios públicos ativos e receberemos mais de 1.500 alunos de escolas públicas até o fim do ano. Não há como desmontar tudo isso em 15 dias”, afirma Lucas Beda, gestor do teatro.

Mobilização e apoio

Desde a noite de terça-feira (19), artistas, técnicos e apoiadores realizam uma assembleia para discutir os próximos passos. Um ato público está marcado para a manhã seguinte em defesa do espaço.

A campanha contra o despejo recebeu apoio de figuras importantes da cultura brasileira, como a atriz Fernanda Montenegro, que publicou uma carta aberta pedindo que o prefeito repense a decisão. Ela destacou o papel do teatro como “sinal de renascimento do bairro” e “espaço de comunhão humana”.

O Ministério da Cultura também solicitou oficialmente à Prefeitura a prorrogação do prazo por 180 dias, alegando que o tempo estipulado é inexequível e pode causar prejuízos irreparáveis à companhia e à sociedade.

O que está em jogo

O terreno ocupado pelo Teatro de Contêiner está localizado entre as ruas General Couto Magalhães, dos Gusmões e dos Protestantes — área antes marcada pela presença da Cracolândia. A Prefeitura planeja construir ali um conjunto habitacional em parceria com a COHAB e a CDHU, mas até o momento não apresentou detalhes técnicos ou cronograma público do projeto.

A permanência do Teatro de Contêiner Mungunzá é vista por muitos como essencial para a revitalização cultural e social da região central de São Paulo. A remoção abrupta, sem planejamento e diálogo, ameaça não apenas um espaço físico, mas um símbolo de resistência, inclusão e arte.

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